Relações Públicas online, com monitorização e sem croquete


Sergio BastosSergio Bastos 16 Dezembro 09 15:30

RP sem croqueteRenato Póvoas edita desde Agosto de 2005 o blogue Relações Públicas sem Croquete, levado à estampa recentemente pela Gestão Plus. Acompanhando a sua experiência nas RP enquanto managing partner da Guess What PR e da vivência atenta aos meios online, colocámos algumas questões que não puderam deixar de focar o caso Pingo Doce e da apetência das agências RP nacionais para a internet 2.0.

No livro somas várias experiências que te acompanham desde o início do blogue, e não só. O espaço online é, hoje em dia, a melhor plataforma de expressão e aprendizagem para um profissional da comunicação?
O espaço online é hoje mais um espaço de expressão e aprendizagem para quem actua nesta área. Não sei se é o melhor mas é de facto um dos mais importantes. Quem detectar nesta plataforma as melhores fontes e souber filtrar a imensa informação que existe online conseguirá, certamente, retirar muita e boa informação, proveniente dos mais diversos cantos do globo.

O meio online, não sendo o contexto em que as RP nasceram, tem inevitavelmente de ser abordado por estas. Existe RP para a internet 2.0? Se sim, o que as define? É um novo mundo para todos os profissionais de Comunicação. Todos nós temos que nos adaptar a este contexto que surgiu nos últimos anos. Na minha opinião, pela visão global de comunicação que os profissionais de RP possuem, estes são os mais bem preparados para agir no meio online. A internet 2.0 são assim uma excelente oportunidade para as empresas e consultores de RP demonstrarem todo o seu know-how e assumirem a condução dos processos nesta área.

O facto de existirem já empresas focadas exclusivamente em RP online é um excelente indicador e deixa antever que esta nova realidade será dirigida por pessoas que de facto entendem de forma transversal o que é fazer Comunicação Empresarial nos tempos actuais. RP para internet 2.0 é procurar ajudar empresas e marcas a compreender e a intervir online, a gerir o que se diz sobre as mesmas e a actuar em caso de crise.

As agências de RP portuguesas estão preparadas para a cada vez maior digitalização das relações de comunicação? Que avanços conheces?
Infelizmente nem todas as agências estão preparadas nem valorizam esta nova área. Talvez por força das características e mentalidade das pessoas que estão dirigir estas empresas – ex-jornalistas; olham para as RP de forma redutora, apenas como assessoria de imprensa; avessos ao risco – a digitalização das relações públicas e comunicação não constitui uma prioridade. Contudo, existe já actualmente uma nova geração com uma outra formação e mentalidade, onde eu me incluo, que olha para esta nova realidade sob uma outra perspectiva e, acima de tudo, como uma oportunidade e não um problema.

Renato Póvoas - apresentação de livroTal como referia anteriormente, o surgimento de empresas dedicadas exclusivamente a RP online com profissionais formados em RP e Comunicação Empresarial são de facto um excelente sinal para o mercado. Sendo esta uma área onde a componente principal são os conteúdos não poderá ser ocupada por publicitários nem por outros profissionais que têm uma visão redutora da Comunicação.

Sei que tal como aconteceu no passado na publicidade, onde os clientes com o boom da internet começaram a alocar orçamentos específicos para o meio online, no próximo ano existem já empresas que estão a solicitar estratégias de RP exclusivamente para o ambiente online. Isto significa que sabem diferenciar as coisas e começam a valorizar o contributo desta nova área para o seu negócio.

A Gestão de Crise é uma das disciplinas mais conhecidas das RP. A internet complica o trabalho das RP na resolução problemas que envolvam marcas?
Sim, pelos prejuízos que provocam nas empresas, a Gestão de Crise é uma das principais disciplinas das RP. Não considero, no entanto, que a internet complica o trabalho das RP na resolução de problemas. Defendo sim que se as marcas monitorizarem e estiverem atentas ao que os consumidores falam de si, podem minimizar ou até prevenir eventuais problemas. Se não existir este trabalho, de facto poderá ser muito complicado, pois a dinâmica e a velocidade com que a informação circula na internet é de facto brutal. No passado tínhamos até às 20h (hora dos telejornais) para reagir. Hoje não. Tudo é muito rápido. Se não agirmos rapidamente, facilmente o problema se propaga em redes sociais, sendo impossível de deter os acontecimentos. Temos líderes de opinião na internet, com centenas ou milhares de seguidores nas redes sociais, cujas opiniões são autênticos rastilhos, podendo atingir proporções gigantescas, inclusivamente em outras plataformas como os meios de comunicação apelidados de mais tradicionais.

O Pingo Doce saiu fragilizado com o “buzz” negativo gerado online após o lançamento da nova imagem? Ainda é válida a velha máxima “mal ou bem, interessa é que se fale”?
Após a emissão dessa campanha polémica do Pingo Doce existiu de facto uma onda negativa do público, pelo menos na comunidade publicitária de Portugal, nomeadamente com a criação do perfil de Facebook “Gente que não grama o anúncio do Pingo Doce do Duda”. Contudo recentemente num estudo realizado pela empresa GFK foi demonstrado que 70% dos inquiridos que se recordam da anterior campanha do Pingo Doce preferem a actual, enquanto que a música se manifestou como o factor mais memorável do spot. Perante este dado, talvez devemos pensar que esta campanha contribuiu positivamente para a imagem da marca.

Quanto à velha máxima que refere penso que cada caso é um caso, mas que por vezes falar mal é efectivamente prejudicial para a marca.

De que forma é que um departamento de RP pode actuar perante um caso de crise online?
Um departamento de RP pode desde logo monitorizar quais os principais influenciadores de opinião online. Este trabalho é crucial para que quando surge uma crise agirmos de forma rápida e direccionada. Aqui o trabalho passa por demonstrar qual a verdade dos factos (nunca mentir), referir o que irá fazer para minimizar o impacto negativo para os consumidores e mostrar disponibilidade total para esclarecer eventuais dúvidas e questões que existam. O online possibilita que o canal Empresa – Consumidor esteja mais aberto e facilitado, sem obstáculos ou intermediários, o que é uma vantagem quando queremos esclarecer a situação de forma célere, como acontece em situações de crise.

Para terminar, o Relações Públicas Sem Croquete nasceu em 2005 e é tido como o primeiro blogue da área. Entretanto, já há uma comunidade de espaços deste “nicho”. Como a retratas?

De facto o meu blog Relações Públicas Sem Croquete foi o primeiro nesta área, surgindo em Agosto de 2005. Desde aí vi surgirem outros espaços que são muito importantes para o sector. Tenho pena que muitos deles tenham entretanto terminado. Alimentar de forma regular e pertinente um espaço na internet como um blog não é fácil. Exige muito dos seus autores, principalmente tempo que é cada vez mais escasso. Contudo, quando és persistente como eu sou, consegues manter um conjunto regular de leitores, recebes diversos emails com pedidos de informação, e obténs coisas inesperadas como foi o convite para escrever o livro.

Acho que deveriam existir cada vez mais espaços na internet dedicados à Comunicação e RP de forma a gerar um diálogo profícuo entre os seus profissionais e que possibilite um crescimento do sector. Falo de espaços com informação e não de meros desabafos pessoais onde o mexerico é rei.



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Data
16 Dezembro 09 15:30

Autor
Sergio Bastos
Sergio Bastos
é Consultor de Comunicação em Social Media. Blogger desde 2003, é autor do LowCostPortugal (turismo), eBookPortugal (leitura e tecnologia) e colabora no Do Vinil ao Digital (música), blogue do Expresso. Outras participações são inseridas no Ipsis Verbis, site pessoal.
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