Por uma economia política do #followfriday

avatarVasco Campilho 10/07/2009

Hoje é sexta-feira: dia de . Há apenas dois meses, logo à uma da manhã a minha timeline estaria inundada de tweets marcados com o #hashtag mais famoso do universo – se descontarmos o nosso #deb15. Mas agora o arranque é mais preguiçoso, e já não se chega à exuberância de outros tempos. O que levou o @JGAndre a concluir que o #followfriday está em crise. It’s sooooo 1st semester, digo eu.

O que terá contribuído para a decadência – pelo menos entre nós , portugueses – deste simpático ritual de referenciação? Desde logo, o seu próprio sucesso. O que é de mais acaba por cansar. Mas também o facto de a sua estrutura de incentivos potenciar um uso saturante do instrumento. Explico-me: supostamente, o #followfriday destina-se a indicar pessoas interessantes de seguir a terceiros. Isto é, trata-se de uma forma de alguém acrescentar valor à rede dos seus seguidores, indicando-lhes novas pessoas a seguir. Essa é a lógica global do conceito.

A lógica individual, no entanto, é outra. O tuiteiro, como qualquer ser humano, pretende antes de mais maximizar a sua utilidade. Como se faz isso no twitter? Dando à comunidade, para receber dela. Só que a comunidade não é propriamente uma multidão atomizada para a maior parte de nós: trata-se de um conjunto relativamente estável de pessoas com quem vamos estabelecendo relações. É aí que começam a entrar em jogo factores que viciam o #followfriday.

Um deles é o seu carácter repetitivo. Se a comunidade de um determinado twitter é relativamente estável – digamos que passa de 260 para 267 seguidores numa semana – é pouco provável que ele tenha muitos novos #followfridays a dar. No entanto, não deixa de os dar. Porquê? Porque aí entra o segundo factor: a personalização das relações. Se tal pessoa me deu um #followfriday, poderei deixar de lho retribuir? E por aí adiante.

Entra-se portanto num mecanismo de inflação dos #followfridays, em que todos os participantes vão aumentando o número de pessoas que referenciam para não assumirem os custos de ferir esta ou aquela susceptibilidade. Claro que assumem o custo de saturar toda a sua comunidade, mas esse é um custo mais difuso, menos identificável a princípio.

Nos #followfridays como na moeda, a inflação desvaloriza a divisa. Bem me lembro da emoção que foi quando se fez o primeiro ranking de #followfridays, neste mesmo blog. Hoje em dia, who cares? Por isso mesmo, estamos a chegar à fase do #followcrunch, em que muitas pessoas pura e simplesmente deixaram de participar no jogo: não fazendo #followfridays, evita-se o custo de excluir alguém, e também o de saturar a comunidade, o que compensa face ao rendimento decrescente da participação.

Há futuro para o #followfriday, ou irá este morrer após alguns meses de dominação twundial? Veremos se as tentativas de tornar o #followfriday mais qualificado, selectivo e fundamentado vingarão. Mas a vingar, terão sempre uma expressão muito menor que a do #followfriday maciço dos tempos áureos. É que dão trabalho, e isso é uma coisa  de que os bons tuiteiros não gostam muito…

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Data
10 Julho 09 17:43

Autor
Vasco Campilho
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tem 31 anos e vive em Lisboa. Escreve essencialmente sobre política no seu blog pessoal e também no 31 da Armada. Inscreveu-se no twitter em Junho de 2008, mas demorou uns meses a ver a luz. Agora acha que tem uma ideia de como aquilo funciona.

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