Em 2007, aquando do ITiE Symposium 2007, em Londres, para o qual fui convidado como orador, tive a oportunidade de trocar impressões com inúmeros participantes como Sir Geoff Hampton, Maureen Haldane, Vanessa Pittard, Bridget Somekh, Gemma Moss, entre outros. Contudo, fiquei com uma recordação feliz, ao dialogar por breves momentos com o reconhecido e premiado produtor e realizador da 7ª arte, Lord David Puttnam. Quem não se lembra dos filmes A Missão, Midnight Express ou Local Hero, por exemplo?
Durante o seu discurso, agradou-me ouvir e sentir a sua elevada capacidade interventiva no domínio da Educação. Um profundo conhecimento da realidade e das condições actuais do ensino no Mundo dominam as suas perspectivas e preocupações.

Lord David Puttnam. Na nossa breve conversa, pude observar a sua capacidade de ouvir, a sua humildade e profunda empatia. Recordo-o com admiração.
Hoje, Lord Puttnam regressa com um valiosíssimo filme documentário bem provocador e desafiador sobre a Educação, intitulado “We are the people We’ve Been Waiting For“. As questões nele levantadas são de extrema importância, pois colocam em causa o sistema educativo inglês: “Estará o sistema educativo a fornecer aos jovens a oportunidade de desenvolver os seus talentos?“.
Esta verdade inconveniente, que conta também com a preciosa e reconhecida colaboração de Sir Ken Robinson, completamente transversal a todos os Sistemas Educativos de todas as nações, desafia-nos a ir bem mais fundo nas nossas relexões e nas acções que desenvolvemos em cada país para tentar dar resposta às mais angustiantes questões que hoje nos são colocadas, dada a rápida evolução das tecnologias, da economia global e do mundo do emprego.
Infelizmente, em Portugal, pouco ainda se tem feito ao nível da mobilização geral para a reflexão sobre o actual currículo e o Sistema Educativo completamente desajustados das necessidades dos professores, dos alunos, das famílias e da sociedade em geral.
“O modo como aprendemos não tem nada a ver com o talento e a inteligência“, sublinha Henry Winkler, o actor da famosa série apreciada pela geração dos anos 70, Happy Days.
Ao longo do meu percurso como aluno, assisti inúmeras vezes a observações negativas por parte dos professores relativamente a colegas meus. Eram crenças e convicções que deitariam abaixo qualquer ser humano que não tivesse um mínimo ambição, auto-estima e força de lutar e de vencer na vida: “Assim, nunca serás ninguém!”, “Se não estudares, nunca terás emprego…”. Muitos desses meus colegas na altura são homens e mulheres de sucesso!
Ainda hoje este mau hábito está enraizado na escola. E o caminho não é por aqui!
Há crianças com talentos especiais que se revelam cedo e que nem sempre são aproveitados ou potenciados pela escola. Todos os alunos seguem o mesmo currículo, mesmo que não sintam aptidão ou predisposição para tal. Não possuimos instrumentos, estratégias ou estruturas capazes de distinguir cada capacidade, cada competência dos nossos alunos. Não temos instrumentos e recursos humanos com vocação nas escolas para promover e incentivar, desde muito cedo, os talentos naturais de cada criança e cada jovem.
A Educação em Portugal e noutros países já não pode estar à mercê de agendas políticas. É necessário que as Universidades, as entidades educativas e a sociedade em geral se empenhem e se comprometam num debate sério que resulte em propostas claras e profundas de transformação do nosso actual sistema educativo ainda fundado na revolução industrial com metodologias desadequadas e ultrapassadas face à realidade actual.
A “Inovação disruptiva” de que falava o Prof. António Dias Figueiredo, na sua apresentação, na conferência “Educar para a Inovação”, está a crescer cada vez mais e a revelar-se um factor importante à margem do sistema, aqui comentada pela Dra. Teresa Pombo. Parece-me que este tipo de inovação está a emergir no interior de redes sociais, discretamente, tal como tem vindo a acontecer na comunidade Interactic 2.0. Muitas têm já sido as interacções, as reflexões e as mudanças provocadas pelas relações que se vão criando entre os seus membros.
Neste espaço, que acolhe todos aqueles que desejam ser mais interventivos neste processo de mudança urgente, criam-se grupos cooperativos e colaborativos que podem desempenhar um papel extremamente importante neste processo. Serão estas as pessoas pelas quais temos esperado?
Talvez este grupo em crescimento sinta que não podemos continuar a “chover no deserto“, retomando uma expressão do Prof. António Dias Figueiredo.
Para não continuar a chover, veja o trailer do documentário “We Are The People We’ve Been Waiting For”:















Mais um excelente artigo, José Paulo. Confesso que houve uma parte que me tocou particularmente, aquela em que dizes "Ao longo do meu percurso como aluno, assisti inúmeras vezes a observações negativas por parte dos professores". É de facto algo com que me confronto com demasiada frequência: alunos com a auto-estima como tal completamente destruída o que inviabiliza em parte a sua aprendizagem. O papel do professor deve ser, antes de mais, despertar o gosto por aprender. O resto vem por acréscimo. Aliás, costumo pensar que o bom aluno é-o sempre, independentemente do professor. O desafio são, assim, os outros alunos. Tendo a oportunidade de, nos últimos anos, acompanhar as mesmas turmas ao longo dos 3 anos do 3º ciclo do EB, além das competências específicas da minha disciplina (Língua Portuguesa) há outras três que me esforço por trabalhar neles e com eles: a tecnológica, o trabalho em equipa e a criatividade. São fundamentais para o futuro; sobre isso cada vez tenho menos dúvidas. De resto, há algumas coisas que os meus alunos são "proibidos" de dizer ou sequer pensar
a partir da primeira semana: "Não sei", "Não gosto", "Não quero" e, sobretudo, "Não consigo". pelo menos, até tentarem e… conseguirem em menor ou maior grau, mas conseguirem. Tenho sido feliz assim e acredito que estou no bom caminho!
Obrigada pelo texto, pela referência, pelos extraordinários links, pela forma como provocas e alargas a discussão e, acima de tudo, como trazes a discussão sobre as verdadeiras questões da educação para a rede! Continuação de bom trabalho!
Uma das coisas que mais me interpela numa sala de aulas (ou na zona de estudo da minha "loja") é olhar para aqueles alunos todos e saber que, por qualquer razão meio estranha, o sistema de ensino superior tende a apoiar os que menos precisam. Parte do problema de "Bolonha" é vencer esta tendência natural do docente para "gostar" mais dos que menos precisam dele, os bons alunos. Os outros é que dão trabalho. E são esses, precisamente, os que importa ganhar para o sucesso, sem facilidades tipo "novas oportunidades". Nada me gratifica mais do que dar com ex-alunos que não foram especialmente brilhantes curricularmente, mas a quem "tocou" o estender da mão de um colega, por exemplo, na participação num projecto de investigação. Obrigado pelo texto e ligações, JPSantos.
O tema do artigo é cada vez mais premente: não é por acaso que o problema é global. O que existe só é bom mesmo onde não há sistema educativo nenhum e a sede e necessidade de aprender – seja o que for – é sempre bem vinda. A Teresa, no 1º comentário fala em 3 competências que se esforça por passar aos seus alunos, a tecnológica, o trabalho em equipa e a criatividade, além das da sua disciplina. Eu acrescentaria uma quarta, que é aprender a ver o mundo de uma forma global – tudo está ligado – e não "aos quadradinhos", em que os quadradinhos são as diversas disciplinas do currículo.
Na minha modesta opinião, esta última é uma das razões porque os sistemas educativos existentes não são adequados.
Se os talentos NATURAIS de cada criança nascessem consigo o problema estaria resolvido! Acontece que têm de ser DESENVOLVIDOS, e isso dá trabalho