Os fantasmas do Twitter


Pedro FonsecaPedro Fonseca 31 Março 09 14:30
Ouvir com webReader

Guy Kawasaki é um nome conhecido, antes e agora no Twitter pelas dezenas de “tweets” que produz diariamente.

 

Na sexta-feira, 27 de Março, escreveu: “Went to lunch at Simplyhired and they were serving breakfast!” e juntou uma fotografia do local.

 

Outro peso pesado, Dave Winer, questionou-o: “@guykawasaki – beeeeg stufff — was that you or your ghost? :-) ”.

 

Kawasaki retorquiu: “@davewiner Only the real guy responds to tweets. Ghosts only post links”.

 

A conversa foi críptica para muitos dos milhares de seguidores do “RSS merchandizer” e do “Media Hacker”. “Ghosts” (fantasmas) a colocarem links?…  A história é simples mas suscita questões interessantes.

 

Uma semana antes, Aran Hamilton inaugurou o seu blogue com o texto “Authentic voice – or why I think slightly less of Guy Kawasaki and more of Ashton Kutcher, Shaquille O’Neal and Demi Moore”, e desenterrou uma entrevista a Kawasaki publicada no blogue I Am Paddy em Janeiro.

 

Em “How Do You Twitter: Guy Kawasaki?”, questionado como escrevia tanto e quase 24 horas por dia, este explicou:
“First, I use a Twitterfeed from the Alltop announcements blog, but this is only one per day or so. (…)
Second, I have a Twitterfeed from Truemors. (…)
Third, there are two people who tweet on my behalf. (…)
Fourth, the rest is me.”

 

Hamilton atirou-se ao terceiro ponto: “This raises the question about the difference between Guy’s personal brand and his corporate brand, and it also has a faint odor of an old professor taking credit for his grad student’s work. Should @GuyKawasaki be renamed @TheGuyKawasakiCollective?”

 

No dia – e texto – seguinte, sintetizou: “Thou Shalt Not Take Credit For Another Person’s Posts (even with their permission). It’s just not authentic”.

 

APROVADO OU INACEITÁVEL

 

Também a 23, Dave Fleet explica o seu “problem with undisclosed authors” e confirma com Kawasaki que são três os “escritores fantasma” (Annie Colbert, Gina Ruiz e, raramente, Bill Meade).

 

Em paralelo, o blogue Copywrite, Ink elucida sobre “The Three Most Common Positions On Ghosting Posts”: “Rampant Acceptance”, “Qualified Acceptance”, “Genuinely Unacceptable”. Com sete milhões de utilizadores no Twitter, há naturalmente apoiantes das três posições.

 

Num inquérito lançado por Fleet, das 145 respostas apenas 49 (ou 34%) consideram a prática errada.

 

ethics-of-ghost-blogging

 

Em abono de Kawasaki, ele não esconde o nome dos ajudantes na biografia do Twitter e assume uma posição cristalina no assunto. Ao I Am Paddy, dizia: “Why does it matter who is doing the tweeting? Either the content is good or not good. I’d rather follow a smart intern tweeting for a CEO than an dumb CEO tweeting for himself or herself”.

 

Stowe Boyd discorda: “There is a really important difference if the CEO writes those particular words himself, even if his grammar is bad”.

 

Tanto mais quando o disseminado “retweet is very useful for sharing good information while crediting the originator”. Ora nestes casos, o verdadeiro autor não é reconhecido mas apenas o criador da conta no Twitter que lhe paga pelos textos ou links.

 

NÃO ACREDITE EM TUDO O QUE LÊ…

 

A questão dos “ghost writers” não é nova. A “profissão escondida” existe há muito na literatura, na política e até na medicina.

 

Há mesmo quem tenha escritores fantasma para escrever as próprias palavras. É o caso do rapper 50 Cent, revelou o New York Times em “When Stars Twitter, a Ghost May Be Lurking”, onde também se abordou o caso de Kawasaki (e a sua “ghost” Annie Colbert afirmou querer ter uma dezena de clientes semelhantes).

 

A frase “My ambition leads me through a tunnel that never ends” surgiu no Twitter de 50 Cent e é realmente dele mas a twitescrita coube ao seu director Chris Romero. Talvez para alegria de muitos dos 200 mil seguidores, “He doesn’t actually use Twitter”, assegurou o “ghost twitterer”.

 

As celebridades estão em maioria no Twitter mas nem todas seguem o mesmo padrão.

 

Kanye West tem duas pessoas a actualizar o seu blogue e Britney Spears procurou alguém para lhe tratar das contas Twitter (com resultados impressionantes) e Facebook mas é o ciclista Lance Armstrong quem fala das suas mazelas e Shaquille O’Neal, além do basquetebol, actualiza a sua conta porque “It’s 140 characters. It’s so few characters. If you need a ghostwriter for that, I feel sorry for you”.

 

ignore
Top 100 twitter users by job type

 

PROCURA-SE FANTASMA COM FUTURO

 

Quem teve a paciência de chegar aqui, detectou que há uma audiência para os “ghosts” e há interessados em os contratar. Esqueçam os críticos; Armstrong e O’Neal são excepções.

 

Apesar dos benefícios associados (“Are these jobs salary based? Pay-per-tweet? Dental plan?”), a procura deve crescer com as celebridades deste mundo a entenderem que a sua preponderância mediática e as respostas aos fãs têm de ser profissionalizadas – até para evitar contratempos amorosos.

 

Este interesse deve varrer igualmente empresas e instituições focadas na disseminação mediática das suas ideias e projectos, porque “often a social media groundswell takes time as opposed to a flash flood of media hits. >For organizational social media, this means targeting credible contacts that have the right people in their network, not necessarily the most people”.

 

Já se nota o interesse e o dinheiro a mexer nestas áreas. Realmente. Mas as razões que vão motivar as organizações são diversas, endógenas. Algumas são abordadas neste “The Facebook Generation vs. the Fortune 500”. Em síntese:
1. All ideas compete on an equal footing.
2. Contribution counts for more than credentials.
3. Hierarchies are natural, not prescribed.
4. Leaders serve rather than preside.
5. Tasks are chosen, not assigned.
6. Groups are self-defining and -organizing.
7. Resources get attracted, not allocated.
8. Power comes from sharing information, not hoarding it.
9. Opinions compound and decisions are peer-reviewed.
10. Users can veto most policy decisions.
11. Intrinsic rewards matter most.
12. Hackers are heroes.

 

Celebridades e instituições vão estar em várias plataformas ou escolher aquelas cuja audiência mais lhes interessa ou onde são mais mimados. Por exemplo, “Twitter And Facebook Are Different Communities” e “While most Twitter users are on Facebook, most Facebook users are not on Twitter”.

 

É uma audiência diversificada, atomizada, com sobreposições e, no caso do Twitter, falsos seguidores que distorcem qualquer tentativa de obter números credíveis).

 

image6

 

image8
How to spot a Twitter user with a ‘Fake’ Follower Count

 

A evolução tecnológica não garante que estas sejam as plataforma de futuro. Desconhece-se quanto tempo vão durar as que têm agora algum sucesso, qual será a próxima “consciousness of the planet”.

 

Por tudo isto, as competências necessárias para dominar – não é “desenrascar”… – efectivamente as redes sociais não são do outro mundo mas são complexas.

 

O perfil para o lugar de “ghost” envolve competências de escrita e conhecimento dos novos media, uma forte capacidade de interacção com domínio de áreas específicas, análise de métricas, antecipação de tendências tecnológicas – sem exageros, claro…

 

Há uma oportunidade nestes tempos de crise. E embora não seja o sector mais afectado, são os jornalistas – os “Death of Newspapers bloggers” – quem está melhor apetrechado para se tornar em “ghost writer”? Gostava de ouvir opiniões porque não tenho a certeza.

 

Uma coisa é certa: quando se passa, em média, mais de oito horas a olhar para ecrãs, 140 caracteres têm de se destacar, pela qualidade ou pela repetição. Têm de se elevar como marca numa esfera mediática hipercarregada de logótipos e mensagens. Guy Kawasaki percebeu isso. Os seus fantasmas também.



Partilha
Twitter            

Secção

Data
31 Março 09 14:30

Autor
Pedro Fonseca
Pedro Fonseca
é jornalista. Atirou-se aos blogues em 2002 no ContraFactos & Argumentos e, desde 2006, recomendou VideosAver. É um retwitador esforçado no Twitter: procura a qualidade para a partilhar. Quem o segue, sabe que nem sempre consegue...

Últimos artigos de
Pedro Fonseca




0 últimas reacções a este artigo



This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

4 a “Os fantasmas do Twitter”


  1. Telma M.
    Telma M. diz:

    Concordo com a existência/contratação de ghosts, desde que seja sabido que existem e que nem sempre é o “titular da conta” a twittar.
    Como é referido, desde que a informação seja relevante não prejudica ninguém,antes pelo contrário.

    As pessoas que não gostarão dessa prátca serão as que não seguem pela qualidade dos conteúdos, mas pela pessoa em si. Como seria de esperar no caso das celebridades. O que se procura é uma espécie de imprensa cor-de-rosa na primeira pessoa…isto digo eu, que sou pedreira (como se costuma dizer na minha terra).

  2. B. B.
    B. B. diz:

    Antes de tudo, qual é o objectivo do Twitter e porque é que se utiliza o Twitter?

    Entre muitas outras razões:
    1-Há quem utilize o Twitter por razões práticas e pragmáticas
    2-Há quem utilize o Twitter para transmitir informação útil
    3-Há quem utilize o Twitter por egocentrismo
    4-Há quem utilize o Twitter como coleccionador de seguidos e seguidores

    Visto por outro ângulo:
    Há quem utilize o Twitter pensando em e-mail
    Há quem utilize o Twitter pensando em messenger
    Há quem utilize o Twitter pensando em blog
    Há quem utilize o Twitter pensando em site
    Há quem utilize o Twitter pensando em misturas dos anteriores ou outros

    Se tudo isso for considerado comportamento, para os compreendermos temos de chamar a psicologia, a psiquiatria, a sociologia e todas as tias “ias” e todos os primos “ismos”.

    Depois, provavelmente, de acordo com os nossos interesses e idiossincrasias assim estaremos de acordo com uns e em desacordo com outros.

  3. Marco
    Marco diz:

    Excelente trabalho jornalístico, este post. Parabéns ao autor.

  4. Pedro Fonseca

    Telma,
    totalmente de acordo (“As pessoas que não gostarão dessa prátca serão as que não seguem pela qualidade dos conteúdos, mas pela pessoa em si.”) Daí o problema dos fantasmas: eu sigo um escritor mas afinal quem twitta não é ele, que apenas dá o nome. Pode existir uma sensação de frustração, quando se sabe. Um disclaimer sobre isso resolve o assunto.

    B.B.,
    por agora, o Twitter pode ser isso mas, parece-me, vai ser muito mais.

    Marco,
    obrigado.

    Abs para todos



Comente