
O nome da agência noticiosa portuguesa Lusa está associado a um estranho caso, que intriga várias pessoas no Twitter. A conta @agencia_lusa (na imagem acima) deixa qualquer um perplexo. Ainda esta semana os editores da @BiblioFilmes me inquiriram acerca da autenticidade da conta da Lusa.
Bem. A resposta breve é: não há autenticidade alguma. Vamos à história.
Em Abril a conta começava com um promissor primeiro tweet: “Teste Teste… os takes da lusa vão começar no twitter 4:30 PM Apr 15th from web“. Uma hora depois, caía um take: “17:07 – Gás natural: Factura das famílias desce 4,1 em média por cento – ERSE: Lisboa, 15 Abr (Lusa) – Os preços.. http://tinyurl.com/d5rqht “.
E foi nesse mesmo dia que inquiri um jornalista amigo. Que, depois de investigar internamente, me garantiu: nunca foi criada nenhuma conta oficial.
A conta debitou durante dois dias. Depois, tão enigmaticamente como tinha começado, calou-se. Recomeçou no último dia de Julho, três meses e meio depois. Mas… em indonésio! Mantendo o nome (Agência Lusa), o local (Portugal) e até a bio (Agência Noticiosa Portuguesa) e o logótipo da Lusa como foto de perfil, passou a debitar o feed de um site indonésio sobre — pasme-se — ginecologia, gravidez e alimentação!
Indícios e hipóteses
À primeira vista os indícios apontam para um caso clássico. Alguém abre uma conta abusando de marca alheia mas apanha um susto, ou porque é directamente interpelado (não consegui apurar se foi) ou porque a comunidade reage negativamente (na altura, Abril, a conta foi denunciada publicamente, mas não é claro até que extensão foi a denúncia).
O que se passa a seguir é menos óbvio. Hipótese a) a conta é imediatamente desactivada e abandonada; um hacker (ou um dos serviços fraudulentos que estiveram muito activos no segundo trimestre) assalta-a, rouba a senha e tira partido da comunidade. No dia em que recomeça, com o feed indonésio, a conta @gencia_lusa tem 437 followers (fonte: Twittercounter; verificar aqui.)
Hipótese b) o autor da usurpação, temendo ser descoberto, decide-se por um rumo completamente diferente de forma a baralhar a pista.
Ontem à tarde, eram estas as minhas hipóteses. Contudo, a primeira é descartada mal inicio a investigação. Basta ver a lista de followers para perceber que não há comunidade alguma ali. Quem colocou o novo automatismo não deu um único passo para potenciar a conta, divulgá-la, criar rede.
Seguindo qualquer um dos links, vamos ao site desta Lusa, em www.lusa.web.id. .id é o indicador de top level domain da Indonésia e .web a designação de segundo nível reservada àas organizações informais e pessoas individuais (em Portugal corresponderia, teoricamente, ao net.pt, org.pt ou nome.pt, conforme o caso).
Uma vez no site, nem sinal deste usar o Twitter. Nenhum traço. Nada. A despeito de ter bastante leitura (+ de 16.000 no Feedburner, talvez uns 9 a 10.000 por dedução da tabela de origens dos visitantes), nada ali indica que os autores, ou os leitores, saibam sequer que têm uma conta no Twitter!
Surpreendido, decido suspender a publicação (este artigo era para ter saído ontem) e investigar um pouco mais. Confesso que no início me parecia um artigo fácil, uma história clássica de usurpação. Ora, é tudo menos isso.
A pergunta surge então óbvia: quem é que abriu a conta?

Mistério adensa-se
A única pista que eventualmente conduziria à pessoa que criou a conta — abusando do nome da agência –, revelou-se um beco sem saída. Falo dos primeiros links, antes da conta mudar de continente. Hoje aquele feed já não está activo, mas quando estava levava-nos ao site http://jornaiserevistas.com.
Fonte da empresa confirmou que o site teve as notícias da Lusa, deixou de ter e espera retomar em breve o noticiário que a agência vende para a web. Mas negou, perplexa como eu, a autoria da conta no Twitter.
A pista, mesmo que única, era fraca. A conta tuitou, de início, notícias originadas na Lusa e disponibilizadas pela Jornais e Revistas. Mas qualquer pessoa pode usar qualquer feed e este não é, propriamente, o primeiro caso de aproveitamento de feeds alheios. Nem é forçoso que esse aproveitamento tenha intuitos pouco nobres: pode até suceder, e era frequente, no início do Twitter, que se reservasse espaço para uma marca que é do nosso agrado, ou onde temos pessoas conhecidas, enquanto não descobriam os benefícios da presença. Protegi assim duas marcas do grupo de media a que estive ligado até ao Verão; quando foi caso, passei as contas para quem de direito. E sei de vários outros casos envolvendo jornais.
Mas neste caso não se tratou de nada disso.
Uma conclusão desconcertante
O esfriar da pista da autoria aumenta a intriga e provavelmente deixa sem solução o caso da Agência Lusa no Twitter. Mas deste já podemos tirar uma desconcertante conclusão. No Twitter o mais fácil é somar followers e devemos ter cuidado com as leituras apressadas sobre o que representa o respectivo número. Como este caso deixa patente, esse número pode não querer dizer absolutamente nada.
Pensemos nisto: porque é que uma conta falsa, que está parada durante três meses, passa a meter, através de um automatismo, links para artigos sobre gravidez em indonésio, quase quintuplica o número de seguidores portugueses?
Desde 31 de Julho até ao fecho deste artigo, 2 da manhã de 16 de Setembro, decorreu mês e meio. A acreditar nos números do Twittercounter (e eu acredito), nesse período de tempo a conta @agencia_lusa cresceu de 437 para 2.035 followers, praticamente todos portugueses, alguns brasileiros, quase nada de outras nacionalidades. Só na última semana foram quase 500!
Tenho uma teoria para explicar esta irracionalidade. Mas quero ler as vossas primeiro.








