Estará o Twitter a falhar o seu objectivo de ser o “pulso do planeta”?
Eu confio no Twitter para as mais variadas coisas: manter-me em contacto com pessoas de todo o mundo, informar- sobre assuntos que me interessam, fazer pesquisa, trocar pontos de vista com desconhecidos sobre os mais variados temas e partilhar conteúdos que acho interessantes com todos aqueles que me seguem. Se é verdade que cada utilizador do serviço de microblogging usa o Twitter como bem entende, e para o que bem entende, penso que será seguro dizer que maioria dos utilizadores o usa com os mesmos objectivos, ou pelo menos alguns dos atrás mencionados.
A ideia que o Twitter é o pulso do planeta, tal como os fundadores do Twitter desejam que seja no futuro é uma ideia a que me habituei e da qual gosto. A imagem do planeta em que vivemos pulsar, com os milhões de tweets que são enviados todos os dias, é uma imagem bastante forte e uma que uso normalmente para explicar o que é o Twitter a todos aqueles que não o usam ainda.
Infelizmente, nas passadas semanas, o “pulso do planeta” tornou-se cada vez mais fraco – tão fraco que talvez não seja de todo de confiança contar com ele.
O Campeonato Mundial de Futebol 2010
O Twitter já passou por alguns testes à sua eficácia enquanto ferramenta de comunicação na sua, ainda curta, existência: A morte de Michael Jackson, os terramotos no Haiti e no Chile, a situação política no Irão e na Venezuela ou o temporal na Madeira, vêm de imediato à memória. Apesar de estes eventos terem tido um impacto mundial, o mesmo não se prolongou por muito tempo e dissolveu-se no fluxo de informação diário existente.
Tudo se modificou com o Campeonato do Mundo de Futebol: goste-se ou não de futebol não se pode negar o cariz verdadeiramente global deste desporto que atrai milhões de pessoas de todos os cantos do globo. Não só atrai como gera paixões como poucos outros desportos são capazes de gerar.
Ao contrário dos eventos anteriormente descritos, desta vez a empresa Twitter envolveu-se no evento criando para o efeito uma página de pesquisa especial bem como um conjunto de #hashtags que se transformam, no interface web, em imagens das bandeiras dos países que participam no Campeonato do Mundo de Futebol.
De imediato os efeitos de um evento verdadeiramente global como o Campeonato do Mundo, e a causar um fluxo acrescido de informação fora do habitual e constante, fez-se notar ao utilizador comum do Twitter ao impedir uma comunicação eficaz. Os mails a anunciar o estado operacional do Twitter começaram a ser diários, a famosa baleia tornou-se uma presença omnipresente nos monitores e quando a Twitter não estava de todo em baixo, estava demasiado lento e o volume de posts sobre o que fazer quando não se tem Twitter começaram a ser novamente publicados.
No passado sábado escrevi este tweet dizendo que se os Estados Unidos e o Brasil fossem eliminados do Campeonato Mundial de Futebol o Twitter voltaria a funcionar como deve ser. Se pensam que estou a exagerar olhem para o seguinte gráfico baseado no jogo de Segunda-Feira entre o Brasil e o Chile.

Como podem ver, no momento em que o Brasil marcou o seu primeiro golo, o número de tweets enviados por minuto contendo a #bra era 40 vezes superior ao número enviado 30 minutos antes do jogo começar*. Isto também significa que os servidores do Twitter estavam a lidar com 40 vezes mais informação do que há 30 minutos atrás e isso reflectiu-se no número de erros e lentidão de todo o sistema.
É interessante notar que estes números já têm em conta a medida implementada pelo Twitter de reduzir o número de utilizacões da sua API em 50% (para 175** utilizações/hora) como medida para evitar os erros dos primeiros dias no sistema em geral.
Não desliguem ainda o telefone vermelho!
Não existem dúvidas de que o Twitter é uma ferramenta/rede social que está a transformar a maneira como a informação é obtida e partilhada e não restam dúvidas quanto ao seu potencial. Infelizmente, o que a experiência deste Campeonato do Mundo de Futebol veio demonstrar é que ainda muito tem que ser feito no que diz respeito à sua infraestrutura para que o serviço de microblogging possa na realidade ser o “pulso do planeta”
No entretanto não desliguem ainda os vossos telefones vermelhos Sr. Obama e Sr. Medvedev: A experiência do Campeonato do Mundo de Futebol está aí para demonstrar, mais uma vez, que confiar apenas em um único veículo de comunicação é um erro: Enquanto a famigerada baleia for uma presença constante faz todo o sentido manter outros canais de comunicação abertos e operacionais. É que ninguém quer estar dependente do Twitter quando uma mensagem importante, e provavelmente final, tiver que ser enviada.
* Resultados obtidos através da Página de Pesquisa do Twitter
** Ontem durante o jogo entre Portugal e Espanha o Twitter viu-se obrigado, durante algum tempo a reduzir para 75 este número.
Imagem: Ann Douglas via Flickr (Sob uma licença CC)
Texto publicado originalmente em inglês aqui
Tags: twitter, Campeonato do Mundo de Futebol 2010







