Entre os mais eloquentes exemplos da perda de importância dos mainstream media para a informação, formação e lazer das pessoas está a conta de Lance Armstrong no Twitter, @lancearmstrong.
O ciclista americano, que este ano correu o Tour de France pela Astana, tornou-se uma das celebridades do Twitter. E digo tornou-se porque Lance o deve ao seu trabalho na rede e não tanto, como outras celebridades, à fama pré-existente, transportada para o Twitter. Estou a pensar na apresentadora de televisão Oprah, entre outros.
Sim: Lance já era conhecido. À escala global. Mas ser conhecido não é ser uma celebridade. Isso ele conseguiu mais com os dedos e a cabeça do que com as pernas e o trabalho da equipa.
O resultado da relação de Armstrong com a sua plateia global é isto: a dispensa dos media enquanto mediador. Armstrong é uma estrela com vida própria que diminuiu drasticamente a dependência dos media — dependência essa que sempre constituiu um pau de dois bicos para os famosos, obrigados a cumprir uma surreal coregrafia de escapadelas, poses, horários e até algumas bizarrias.
Armstrong tem algo para dizer? Algo do género do que é considerado notícia, por relevante? Um contrato, o roubo da bicicleta, um novo tipo de treino, um remoque a um colega? Incluindo colega que venceu a prova mais importante do calendário? 140 caracteres (ou menos) depois, quem se importa com ele está informado. Em primeira mão.
Ventoux done. What a day!! I have never (ever) seen crowds like that @ the TdF. Unreal!! I felt great too and kept my “podium” spot. Happy.4:49 PM Jul 25th from UberTwitter
Armstrong tem algo para dizer? Algo indicado para a imprensa “cor de rosa”, tipo um jantar com patrocinadores, a oferta de uma rosa à mulher? 140 caracteres (ou menos) depois, quem se importa com ele já o sabe, e retransmite alegremente à sua rede de fãs, ou simplesmente pessoas que escolhem saber das notícias de Armstrong.
http://twitpic.com/brat7 – TdF done. Happy! Having some drinks with the greatest of all time, Eddy Merckx.12:12 AM Jul 27th from TwitPic
Armstrong fez uma foto da janela do quarto em plena competição? Digamos, esta foto do Lago Annecy, em França?
Basta-lhe fotografar e partilhar no Twitter. Cada foto de Lance Armstrong tem mais pares de olhos do que jornais se vendem por dia em Lisboa. As três que aqui reproduzimos, devidamente licenciadas, somam algo perto dos 300.000 pageviews. Cada tweet de Lance Armstrong tem o potencial de ser lido em primeira mão por 1.600.000 pessoas — o seu número aproximado de followers.
O que se passa com Armstrong é uma excepção. Nem todas as celebridades e pessoas que são notícia serão alguma vez capazes de cuidarem assim da sua relação com a sua plateia, alargada ou nem tanto. E nem todas as pessoas que se inscrevem em redes sociais ficam automagicamente habilitadas a um passeio grátis para a fama. (Na realidade nenhuma fica).
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Mas as excepções são cada vez mais numerosas e um dia as pessoas antes conhecidas por telespectadores estarão despreocupadamente a engrossar as redes de proximidade das vedetas sobre as quais não perdem pitada — com as vantagens do processo de desintermediação.
Puxo este exemplo por 2 motivos. Em primeiro lugar, para corrigir uma trajectória do olhar sobre os efeitos dos meios sociais. Não é só sobre “as notícias” e os órgãos “sérios” que eles se fazem sentir. Os órgãos de comunicação que vivem mais das pessoas que dos acontecimentos também não estão a salvo. Mais: a experiência e a análise dos comportamentos de consumo na rede indicam grande apetência pelos vários “noticiários” de baixo valor.
Em segundo lugar, porque me confrontei por estes dias com o pensamento de avestruz que domina redacções. Sobretudo nos meios mais protegidos, porque se julgam ricos ou acima do que acham ser uma crise financeira que afecta a publicidade, existe um clima de irrealismo.
Lance Armstong tem o ótimo hábito de andar na frente do pelotão.
Tags: Armstrong, mainstream media







