
“Eu digo que há se o pudermos levar para todo o lado” responde-me o @alexgamela, na brincadeira. Mas a frase é lapidar e é exactamente esta a ideia que se deve fazer (ou, pelo menos, que eu faço) do Twitter. Para mim, faz tanto sentido perguntar se há vida para além do Twitter, como perguntar se há vida para além do telefone. O telefone, o email, as redes sociais, os blogs, os mundos virtuais, é tudo a mesma coisa, nessa perspectiva: são apenas ferramentas de comunicação. Evidentemente que têm velocidades, ritmos e formas de transmissão/recepção diferentes, mas servem todas para comunicar, para “falar” e “ouvir”.
Ninguém estranha que se leve o telemóvel para todo o lado. Que se passe a vida a falar e a mandar sms’s, até nas alturas menos apropriadas. Nunca ouvi ninguém dizer “aquele tá viciado em conversas ao telemóvel”; no entanto, quando se trata de comunicação via net, há sempre uma voz lá ao fundo a dizer “vê lá se arranjas uma vida, pá, larga isso”, “eu cá tenho uma vida para além da net (sou melhor que tu)” e “sim, sim, isso são tudo desculpas, nota-se bem que estás é agarrado, são todos assim”. E, normalmente, essas pessoas não fazem a mais pálida ideia das razões que levam as outras a comunicar via net. Razões que podem ser tão diversas como uma pessoa trabalhar ao computador e ter ali umas janelas abertas para ir dizendo umas coisas, gostar de escrever, ou estar fechada em casa por motivos vários (um exemplo clássico que pouca gente sabe ou se lembra é o caso de deficientes e/ou pessoas que sofrem de doenças como o síndroma de Asperger e que usam essas ferramentas para combater a inevitável solidão/dificuldades de sociabilização).
E aqui chegamos a esse terrível palavrão, esse quase “defeito” tão criticado: a solidão. Como se a solidão fosse alguma doença que, com umas vitaminas e uns sumos naturais, pudesse ser ultrapassada. Não, claro que não é assim. As pessoas estão sozinhas e isoladas porque isso faz parte da vida normal, tudo a correr de um lado para o outro, pouco tempo disponível para estar com família e amigos, distância, enfim, tudo isso é absolutamente normal nos dias de hoje. E, se as pessoas recorrem a todas as ferramentas de comunicação disponíveis, parece-me esse um factor positivo para combater esse silêncio. Parece-me (na minha humilde opinião de total leiga) muito mais saudável que uma pessoa recorra ao telefone e à net para comunicar com outras pessoas, do que fechar-se entre casa e trabalho e algum zapping de novelas, coisa essa sim, para mim, realmente alienante da realidade (mas isso ninguém estranha, porque ainda se aplica à maioria das vidas das pessoas).
No caso do Twitter, a ferramenta é excelente porque a escolha é vasta e, ao mesmo tempo, pode ser completamente controlada pelo utilizador. Não existe um único Twitter, existe um para cada pessoa. O leque pode ir desde a utilização apenas para “ouvir” ou “debitar” informação, seguindo os sites de notícias, os gurus do momento, os grupos específicos temáticos, até “conversar” com aquele grupo restrito de pessoas amigas. Entre os dois extremos situa-se o resto das pessoas. No meu caso, tanto uso para ouvir notícias, como sigo alguns twitters que informam sobre temas que me interessam, como para conversar com as minhas amigas e combinar almoços. Ou, pura e simplesmente, se me apetece naquele momento, ir ver do que é que se fala e entrar na conversa se me interessar.
É evidente que há vida para além do Twitter, mas a vida está também dentro do Twitter. Riquíssima, aliás. E, de qualquer forma, tudo isto daqui a mais um tempo, será considerado totalmente normal. Quando, voltando ao @alexgamela, “se se puder levar para todo o lado”. Quando toda a gente usar o seu telefone para twittar em vez de mandar um sms, aquela rapaziada que vive agarrada ao bicho, já não estranha o vizinho do lado também a carregar nas teclas. Como em tudo na vida, na sociedade, o que parece é que conta.








