
A Google apostou muito forte com o Buzz. Uma aposta bem mais séria, penso eu, que a do seu telefone móvel. E justifico: enquanto este é um “produto especulativo”, uma experimentação num mercado não-tradicional da empresa, uma ousadia se quisermos, o Buzz joga forte no tabuleiro principal da Google: a manutenção das audiências web no seu reduto.
Nesse tabuleiro, o Buzz é o equivalente a uma torre no xadrez. Um reduto sólido, que controla e ameaça à distância o adversário (Facebook, Twitter, redes sociais emergentes). E que cria linhas protectoras para cavalos e bispos que auxiliam a estratégia. Um desses cavalos tem um papel particularmente importante doravante: o Google Profile.
Eu sou o meu agregador
De peça esquecida no arsenal de serviços online da Google, o Google Profile tornou-se de um instante para o outro numa peça essencial do publishing e do sharing, as duas actividades sérias principais que temos online (a Google nunca se interessou particularmente pelas actividades de lazer, como o jogo e a socialização pessoal).
Com o Profile, a Google passa a ser um adversário temível num dos melhores mercados do presente e dos próximos meses, que é o mercado da identidade, e entra em cena como actor principal no sector dos perfis online. De um instante para o outro, milhares de publicações e autores passaram a apontar como a sua página de agregação de conteúdos o seu Google Profile (eis o meu), substituindo a página no Facebook, no Twitter ou mesmo o blog principal.
Quem tem a minha chave
A guerra da identidade online passa também pela disputa pela preferência de autenticação e certificação. Trata-se de saber em quem vou confiar para o serviço de “chave” que assegurará com um clique que eu sou eu, em vez de ter de repetir o processo de certificação da identidade em dezenas, centenas ou mesmo milhares de serviços online que ma vão pedir, desde o Twitter a cada jornal e a blog que leio.
Esta guerra está a ser travada a quatro:
- A Google, que até aqui nunca conseguira impôr-se aos outros, apesar do Gmail — e do seu Friend Connect, bem alavancado na blogosfera através do Blogger
- O Facebook, cujo Facebook Connect está muito bem divulgado por toda a web, marcando ainda, de forma significativa, a certificação nas aplicações móveis (por exemplo, quase não há aplicação do iPhone que não a use para o sharing)
- O Twitter, cujo eco-sistema de dezenas de milhar de aplicações está a impôr o hábito do uso da tecnologia OAuth, talvez a mais simples delas (e por isso adequada à web invisível, a das APIs) e que tem menos distribuição pela web mas, como o Facebook, forte presença nos aparelhos móveis
- E o OpenID, uma tecnologia de autenticação que tem a nobre particularidade de ser distribuída, isto é qualquer website pode ser um autenticador — o que poderá jogar contra ela, ou não, depende das forças que conseguir congregar. O WordPress.com é um poderoso aliado, mas a utilização pela Administração dos EUA, em sites públicos e instituições, conferirá uma aura bem mais significativa a prazo.
O quadro é complexo, até porque as tecnologias podem ou não ser suportadas por mais e uma marca. Como exemplo: além da sua própria autenticação, a Google suporta o OpenID em muitos dos seus produtos e é um dos parceiros.
Esta guerra entra agora numa fase menos tecnológica e mais de marcas fortes. Ou seja: deixa o lado b da web, o lado dos geeks e early-adopters, e passa a hit de massas.
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