Portugal vivia ainda os primeiros anos de Internet, quando surge, a 5 de Janeiro de 1998, o primeiro jornal digital. Uma travessia difícil, no jornalismo regional e digital, que graças à persistência do fundador e director, Pedro Brinca, continua em www.setubalnarede.pt.

A dedicação de Pedro Brinca valeu ao “Setúbal na Rede” o Prémio Gazeta da Imprensa Regional, atribuído pelo Clube de Jornalistas em 1999.
O “Setúbal na Rede” nasceu por considerar que os media locais não desempenhavam bem o seu papel, nomeadamente, ao nível da subserviência dos poderes políticos. Quantos, e quem, eram os títulos existentes na altura? E actualmente?
Os títulos existentes na altura eram mais ou menos os menos que agora, com o nascimento de uns e o desaparecimento de outros. A matriz comum vai sendo a da perspectiva única e exclusivamente de negócio, servindo o jornal para colocar os anúncios e sendo o restante espaço preenchido com umas notícias, agora preferencialmente vindas escritas dos gabinetes de comunicação. Assim contenta-se toda a gente e mantém-se o negócio.
Que análise faz a estes 12 anos, nomeadamente, às mudanças de comportamentos provocadas pelo jornal digital, na própria estrutura, na população e nos restantes órgãos de comunicação?
O “Setúbal na Rede” e a estrutura tem evoluído naturalmente ao longo dos anos, com as naturais crises de crescimento e os normais momentos de euforia.
As pessoas foram-se habituando a informação mais dinâmica, mais actualizada e também mais séria, mais rigorosa e mais plural.
Quanto aos órgãos de comunicação concorrentes, não mudaram muito em termos de postura. Abriram muitos sites, fecharam quase tantos, mas falta-lhes seriedade, ambição, postura, dignidade. Sobretudo os digitais não passam de copy/paste dos comunicados.
E como tem sido a evolução do número de leitores?
Não tenho presente a evolução dos leitores, mas posso dizer que há algum tempo que estamos estabilizados entre as 50 e as 60 mil visitas únicas por mês, o que faz do “Setúbal na Rede” o órgão de maior audiência do distrito, ainda que há muitos anos nada se faça para promover a imagem e a marca.
Diz que o “Setúbal na Rede” lidera as audiências. Quais são os títulos que o persegue, no ranking?
Em relação aos jornais de papel é muito difícil ter uma comparação honesta, porque não há controlo de tiragens das edições. Cada jornal inventa o número que quer e depois podemos confirmar discretamente junto das gráficas que esses dados nada têm a ver com a realidade. Havia um caso de um jornal que dizia imprimir 20 mil exemplares e cheguei a assistir na gráfica que não faziam mais de mil.
Mas, por exemplo, “O Setubalense”, jornal histórico, imprime oficialmente seis mil exemplares por edição.
Com os digitais podemos, por exemplo, conferir posição comparativa através do alexa.com. Este site apresenta um ranking de todos os sites do mundo e no último mês [Novembro de 2009] estávamos no lugar 730 mil. O nosso concorrente mais próximo estava no lugar 930 mil, “O Setubalense” em 1.700.000 e o “iMais” em 3 milhões. Usamos ainda o Google Analytics, que em Novembro registou 47.847 visitas únicas, 57.992 visitas totais, 85.606 page views.
E quanto ao perfil, até que ponto conhecem quem vos lê?
Há muito tempo que não fazemos um estudo do perfil da audiência, mas estamos precisamente a preparar um questionário para lançar no início do ano [2010].
Dados antigos indicavam idades dos 35 aos 46 anos (36%), 47 aos 55 (26%) e dos 25 aos 34 (25%), quadros superiores (41%), estudantes (34%) e quadros médios (19%).
Como eu costumava dizer, o “Setúbal na Rede” é essencialmente dirigido à classe decisora, políticos, empresários ou meio universitário, atingindo ainda todos os que se interessam especialmente pela realidade que os rodeia e que pretendem contribuir para a região onde vivem através de uma participação atenta.
Ouvi-o dizer que Setúbal é um distrito complicado, do ponto de vista social. Estende-o à classe política e à própria comunicação social? Sente que os setubalenses são, 12 anos depois, um povo menos infoexcluidos?
O distrito de Setúbal é um distrito complicado, sobretudo pelas suas características geográficas, nomeadamente a sua proximidade a Lisboa e a sua distribuição por duas regiões distintas, a Área Metropolitana de Lisboa e o Alentejo. Seis concelhos são ribeirinhos do Tejo e sentem-se mais bairros de Lisboa; quatro estão no Alentejo, mais virados para outra realidade; e os três que sobram não chegam para fazer um distrito ou uma região com identidade própria.
Isto afecta o trabalho da comunicação social, na medida em que os intervenientes nos diferentes concelhos não se reconhecem muitas vezes na identidade regional que o “Setúbal na Rede” quer representar, embora todos concordem que seria essencial o distrito de Setúbal afirmar-se como uma região própria e autónoma a Lisboa.
É por isso que o distrito de Setúbal não tem mais nenhum jornal distrital, além do “Setúbal na Rede” e que é um dos poucos distritos em que a imprensa regional não tem qualquer expressão.
Sei que houve muita gente, sobretudo os mais velhos, que começaram a utilizar a Internet por causa do “Setúbal na Rede”. Não me atreveria a dizer que esses números seriam suficientes para se afirmar que há menos infoexclusão.
A “bandeira” do jornal sempre foi a independência dos poderes. Porém, aquando do 10.º aniversário, referiu que o “Setúbal na Rede” poderia ver-se forçado a abandona-la, devido aos constrangimentos financeiros. Dois anos depois, mantém a posição?
Mantenho a posição de que pode ver-se forçado a abandonar a “bandeira”, porque perante uma proposta financeira interessante poderei ceder facilmente. Contudo, tenho resistido, e gostaria de poder continuar a fazê-lo, à tentação de perverter a sua independência, como diz, a sua principal imagem de marca.
Há 12 anos ainda mal se falava na Internet, como mercado publicitário. Actualmente, com os estudos a mostrarem que não há como os media fugirem a essa realidade, como justifica o reiterado alheamento?
Preconceito, preconceito, preconceito. Continuo a ouvir que o digital é o futuro, que não chega a toda a gente, que é bom para os miúdos… quando os números dizem claramente que o Setúbal na Rede é mais lido do que os outros. Não há explicação…
Quais são as expectativas e projectos para o “Setúbal na Rede”?
O principal projecto é manter-se vivo. Segundo, encontrar um volume de receitas garantido que suporte os custos fixos da estrutura para aliviar as dores de cabeça e terceiro, retomar a postura dinâmica dos primeiros anos, com arrojo, originalidade, surpreendendo tudo e todos e fazendo mexer a região.








