Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas”


Sergio BastosSergio Bastos 6 Janeiro 10 11:00

Se D. Duarte tinha Fernão Lopes como cronista, a blogosfera nacional tem Leonel Vicente. O autor do Memória Virtual, Tomar, Carreira da Índia e de outros espaços (é também colaborador aqui no Diário2), resume a cada fim de ano, os factos mais relevantes da comunidade “virtual”. Desde 2003 que assim é. Com a tarefa de 2009 concluída há breves dias, entrevistámos o “cronista” tendo por mote a actualidade da blogosfera portuguesa.

Um ano depois de decretado o fim da blogosfera como comunidade, o cenário português mantém vitalidade. Como analisas o anúncio do “apocalipse” à luz de 2009?

Recordando a famosa máxima de Mark Twain, as notícias da sua morte foram claramente exageradas.

A blogosfera vem revelando, já ao longo de quase uma década, uma sistemática capacidade de renovação e de regeneração, sem prejuízo de registar naturais evoluções, com tendências que se vão afirmando, como a dos blogues colectivos – numa incessante busca de massa crítica… e de audiências – e o surgimento em força, desde o início de 2009, de novas plataformas da “Web social”, primeiro com um autêntico turbilhão no Twitter, mais recentemente com o Facebook, mas que não deixam de apresentar alguns traços de complementaridade com a “blogosfera tradicional”, operando em muitos casos como mais um canal de comunicação e encaminhando leitores para os blogues associados.

Se tivesses de eleger três grandes momentos da blogosfera no ano que finda, quais seriam?

O encerramento de alguns projectos de referência, como os casos dos blogues “Atlântico” – com contraponto quase directo no reforço dos quadros do “31 da Armada” e do “Cachimbo de Magritte” – e “Avenida Central”.

Dentro da lógica de renovação, o surgimento do “Delito de Opinião”, uma primeira sangria no “Corta-Fitas”, que sofreria nova debandada já próximo do final do ano.

Num ano particularmente marcado pelas três eleições realizadas em Portugal, com o país em campanha durante largos meses, a inevitável referência à criação – numa parceria do jornal “Público” e de um grupo plural de autores – de um blogue colectivo para acompanhamento desses actos eleitorais, a par de uma sucessão de “blogues de campanha”, de apoio às diferentes áreas políticas em disputa, com a relevância da blogosfera a ser compreendida e a ficar bem patente em iniciativas como a visita de bloggers às instituições da União Europeia, a convite do eurodeputado Carlos Coelho, ou na conferência de blogues com José Sócrates e na tertúlia promovida por Paulo Rangel.

Extra esses eventos que incluiria entre os mais marcantes, um momento particularmente infeliz, que não poderia deixar de assinalar, de tal forma ele marcou – de forma transversal – a comunidade: o prematuro desaparecimento de Jorge Ferreira, um dos mais activos e entusiastas bloggers em Portugal.

Papa MyZena, SIMplex, Jamais, Rua Direita, blogues de apoio a áreas políticas foram e vieram, assim como blogues de campanha. Não faria sentido uma acção prolongada no tempo por parte dos seus autores? Ou será que esse espaço já é preenchido por blogues como o 31 da Armada e Jugular?

Ao longo dos anos, a blogosfera vem ditando algumas regras ou “leis” implícitas: para se fazer parte integrante e activa da comunidade é pressuposto que haja intercâmbio e debate de ideias, que haja abertura a comentários (não obstante algumas excepções…), sobretudo que haja uma presença (minimamente) perene.

Os referidos blogues são um epifenómeno na medida em que agregam temporariamente – tendo por motivação uma acção de campanha com duração limitada e previamente definida (até ao dia das eleições…) –, um conjunto de diversos autores de outros blogues, que têm como factor de unidade a referida campanha, finda a qual se esgota o objectivo e conteúdo do blogue, regressando naturalmente “às suas origens”.

O debate continuado, de forma mais estrutural, com carácter de permanência ao longo do tempo, vem sendo mantido por outro tipo de blogues –  essencialmente também blogues colectivos – posicionados nos vários segmentos do espectro político-partidário português. Para além dos citados 31 da Armada e Jugular, mencionaria também os casos d’O Insurgente, Cachimbo de Magritte, Portugal dos Pequeninos, Blasfémias, Mar Salgado, Câmara dos Comuns, Aspirina B, Da Literatura, A Regra do Jogo e Ladrões de Bicicletas.

Vivemos tempos de cruzamento entre a “publicação instantânea” (blogues) e a opinião em “tempo real” (Twitter / Facebook). Pelo teu relato, a blogosfera não definhou em 2009. É de esperar o contrário em 2010?

Como referi anteriormente, estas novas ferramentas de publicação instantânea assumem uma dupla vertente: por um lado, o papel de mensagens com carácter mais imediatista, potenciando o diálogo – dentro das condicionantes do limitado número de caracteres –, por outro, um canal complementar de difusão dos artigos publicados em blogues, em paralelo com a função de encaminhamento de leitores para esses blogues.

Sendo natural que haja algumas opiniões mais imediatistas, que são orientadas de forma privilegiada e natural para o Twitter – tem um código de linguagem específico, que se proporciona a frases curtas, como que “aforismos”, com contraponto na limitação de conteúdo que obriga a remeter discursos mais articulados para o blogue –, não antevejo alterações significativas neste padrão de comportamento, pese embora alguma eventual diminuição de frequência de publicação nos blogues, mas que não deverá colocar em causa a sua posição de charneira como ferramenta de publicação.

Público, Expresso, Sábado têm redes de blogues. O que esperar do futuro desta confluência entre media e bloggers?

Esta tendência de complementaridade e interpenetração entre blogues e a “mediaesfera” vem já de trás – desde logo com a captação de novos colunistas e “opinion makers” revelados na blogosfera e, num momento seguinte, com o progressivo afluir de jornalistas aos blogues  –, tendo-se acentuado nos anos mais recentes, quer com a consolidação de sistemas de blogues “afiliados”, a par de blogues mantidos por colunistas da própria publicação, como no Expresso, Público, SIC, Sol ou Visão.

Por outro lado, a versão online do Público permite ligações directas aos “posts” de blogues que fazem referência aos seus artigos, enquanto o Expresso passou a enviar previamente a determinados autores de blogues algumas das “matérias” a publicar na edição seguinte, a par do comentário sobre assuntos em destaque na blogosfera, como faz também o Jornal de Notícias.

As redes de blogues de jornais não deixam de defrontar uma limitação, a de não estarem à partida integradas na “comunidade geral” da blogosfera, o que implica – a par de um posicionamento que pode ser de alguma forma apercebido como sendo mais institucional – esforços adicionais no sentido de partilha e integração dessa comunidade.

Em 2009, a iniciativa do Público, lançando um blogue para acompanhamento dos actos eleitorais, participado por uma quarentena de bloggers, veio dar mais um claro sinal dessa interpenetração e do crescente papel do “jornalismo de cidadão”, que será de prever se venham a reforçar e intensificar no futuro, beneficiando também das potencialidades tecnológicas, de captação e retransmissão de imagem (foto e vídeo).



Partilha
Twitter            

Secção

Data
6 Janeiro 10 11:00

Autor
Sergio Bastos
Sergio Bastos
é Consultor de Comunicação em Social Media. Blogger desde 2003, é autor do LowCostPortugal (turismo), eBookPortugal (leitura e tecnologia) e colabora no Do Vinil ao Digital (música), blogue do Expresso. Outras participações são inseridas no Ipsis Verbis, site pessoal.
Envie mensagem directa no Twitter.


16 últimas reacções a este artigo


  1. Manuel Pinto: RT @contrafactos: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://ow.ly/V4sp
  2. contrafactos: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://ow.ly/V4sp
  3. Sérgio Bastos: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://u.nu/6q4g4 entrevista L. Vicente @memoriavirtual ao @diario2
  4. José Man. Fernandes: A ler: RT @diario2: Leonel Vicente: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas" http://u.nu/6q4g4
  5. topsy top5k pt: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://s3g.me/5gr
  6. topsy_top20k_pt: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://s3g.me/5gr
  7. João Almeida: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://bit.ly/6GeHmY (via @diario2)
  8. rui david: RT @diario2: Leonel Vicente: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas" http://u.nu/6q4g4
  9. Antonio CC: RT @diario2: Leonel Vicente: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas" http://u.nu/6q4g4 (via @PauloQuerido)
  10. Ricardo José Saraiva: Diario2 - Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://bit.ly/8QNRpO
  11. vanessaquiterio: RT @PauloQuerido RT @diario2: Leonel Vicente: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas" http://u.nu/6q4g4
  12. Paulo Querido: Grande artigo! RT @diario2: Leonel Vicente: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas" http://u.nu/6q4g4
  13. Nuno Manuel Costa: No @Diario2 → Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram clarame.. http://bit.ly/6MkbJm #diario2
  14. Sérgio Bastos: "As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” Leonel Vicente (@memoriavirtual) ao @Diario2 http://u.nu/6q4g4
  15. Sérgio Bastos: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” Leonel Vicente (@mvirtual) ao @Diario2 http://u.nu/6q4g4
  16. Diário2: Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas” http://s3g.me/5gr

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.

1 a “Leonel Vicente: “As notícias da morte da blogosfera foram claramente exageradas””


  1. pedro oliveira

    Um bom texto que vou linkar , com a devida vénia


0 Trackbacks/Pingbacks

  1. Diário2 06 01 10
  2. Sérgio Bastos 06 01 10
  3. Sérgio Bastos 06 01 10
  4. Nuno Manuel Costa 06 01 10
  5. Paulo Querido 06 01 10
  6. vanessaquiterio 06 01 10
  7. Ricardo José Saraiva 06 01 10
  8. Antonio CC 06 01 10
  9. rui david 06 01 10
  10. João Almeida 06 01 10
  11. José Man. Fernandes 06 01 10
  12. topsy_top20k_pt 06 01 10
  13. Sérgio Bastos 06 01 10
  14. contrafactos 11 01 10
  15. Manuel Pinto 11 01 10

Comente